segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

4. Mensagem da Mãe Carla

TELHADOS DE VIDRO

«Falar de educação em geral e da escola em particular é uma tarefa apaixonante e difícil.

Apaixonante porque envolve um mundo de possibilidades, questões, inquietações, sonhos e emoções;
difícil porque corremos sempre o risco de ser demasiado redutores pois já muito foi estudado, escrito e falado sobre este assunto e não podemos ter a pretensão de num pequeno artigo de revista, dizer tudo o que pensamos ou seria importante dizer.»

Encontrei este texto escrito por uma professora, Marisa Lopes, num livro editado pelo agrupamento de escolas de Vila Cova, ao qual me sensibilizou e que, no fundo me fez vêr a realidade humana no seio escolar. Transcrevê-lo-ei para que nos faça a todos reflectir, afinal, o que é o ensino e onde nos poderá levar:

«Reflecti muito no que deveria escrever e imaginei este artigo com diferentes formas e conteúdos; decidi ser coerente com a minha filosofia de escola e educação e não vou escrever um artigo científico, nem usar linguagem complexa e sofisticada para mostrar o que aprendi sobre o assunto.

Vou fazer um desabafo, vou partilhar convosco dúvidas, factos e convicções que fui alimentando ao longo de muitos anos de intenso trabalho nesta área.
Falo para os pais, alunos e professores mas, acima de tudo para as pessoas que são, independentemente dos papéis que representam.

A escola é um mundo complexo e dinâmico que vive em constante equilíbrio instável, é feita por pessoas e para pessoas. Todas com as suas histórias, limitações, potencialidades e percursos de vida próprios pretendem, à partida, ter sucesso.
Os professores desejam que os seus alunos aprendam, os pais querem que os seus filhos tenham boas notas, os alunos querem ter sucesso, os órgãos de gestão querem que as escolas funcionem bem e tenham bons resultados, o governo quer que o povo seja culto e produtivo.
Todos parecem preocupar-se muito com o sucesso da educação em geral e da escola em particular. Todos concordamos que a escola é fundamental para os indivíduos e que a educação é o barómetro da qualidade de um país e a sua plataforma para o desenvolvimento.

Se todos estamos de acordo o que se passa então?
Porque existe este desânimo?
Porque há tanto insucesso?
Porque é que os alunos estão cada vez mais desmotivados?
Porque é que os pais estão cada vez mais zangados com a escola e a escola com os pais?
Porque estará a escola a caminhar a passos largos para o caos que vai minando e deprimindo os que nela vivem?
Dependendo de com quem falamos e do meio em que estamos, “os culpados” parecem encontrados e o problema fácil.

Os pais dizem que a culpa é da escola e dos professores, os professores dizem que a culpa é dos alunos e da família, os alunos dizem que a culpa não é deles, que a escola é uma “seca” e que não gostam de estudar.
O governo diz que investe muito na educação e que compete às escolas e aos professores encontrar soluções.
Afinal em que ficamos?
Parece-me que estamos numa Babel caótica onde todos acham que cumprem bem o seu papel. Por isso se queixam, se lamentam e levantam a sua voz bem alto, com as suas razões, as suas perspectivas, o seu ponto de vista. Só que cada um fala a sua própria língua e ninguém parece entender-se.

A postura mais fácil é acusar, julgar, exigir, desculpabilizarmo-nos com a incompetência dos outros, mesmo que não o façamos de forma voluntária ou mal intencionada. Acredito que é instintivo porque andamos cansados, preocupados, stressados com os problemas sociais, económicos e pessoais, sejam eles quais forem e de forma mais ou menos intensa, é legítimo; afinal não somos perfeitos, a vida não é fácil e ser tolerante, compreensivo, ver o ponto de vista do outro e perdoar, nem sempre é fácil.
Pais, acreditem que não é fácil ser professor, nós lutamos com muitas dificuldades e constrangimentos, limitações que vocês nem imaginam, os vossos filhos não são perfeitos, nem sempre fazem o que deviam, acreditem que nós, como vós, queremos que os vossos filhos tenham sucesso, não nos julguem, ouçam-nos, colaborem connosco e ajudem-nos.

Professores, algun somos pais, ser pai não é fácil, não se ensina ninguém a ser pai, por vezes há problemas, dificuldades e opções que não conhecemos, acreditem que todos os pais, à sua maneira, querem que os seus filhos tenham sucesso, não os julguemos, vamos ouvi-los, colaborar com eles e ajudá-los.

Alunos, um dia sereis pais, talvez até professores e não é fácil ser pai nem professor, acreditai que queremos que sejais felizes e tenhais sucesso. Estais na idade de questionar, confrontar e ser do contra, é natural, mas queremos ajudar; portanto, não nos julgueis, ouvi-nos, colaborai connosco e ajudai-nos.

É urgente que cada um de nós mude de atitude, seja mais aberto, reflicta mais profunda e sinceramente sobre o que faz e o que pode fazer para melhorar.

Posso parecer idealista, não me levem a mal, sei que pode não ser suficiente mas acredito que é um bom princípio. Não podemos continuar a culpar, a julgar, a virar as costas, convencidos de que não podemos fazer nada e à espera que alguém resolva todos estes problemas. Temos que ter coragem de dar o primeiro passo e se o fizermos no dia a dia, em casa, na escola, conseguiremos um efeito magnífico e o resto virá por acréscimo. Porque não são só as leis, o profissionalismo e a competência dos professores, os bons equipamentos escolares, as modernas tecnologias e a boa vontade dos pais, que bastam para reverter a situação. Tudo é importante, ajuda e facilita mas sem uma mudança de atitude de todos, o sucesso só chegará para alguns e eu queria que a escola fosse de todos e não de alguns.»

Esta Professora despede-se com «Um abraço amigo e confiante.» Só esta frase diz tudo...
Na minha opinião, Marisa Lopes tem razão. Tudo o que dermos no presente, reflectir-se-à no futuro. E o futuro são os nossos filhos e toda a sociedade em que vivemos. Um dia serão adultos como nós. Se não gostamos do caminho que a sociedade nos leva hà que alterar isso no agora...
Eu tenho esperança nisso e esforço-me todos os dias :)

EDUCAR UMA CRIANÇA, PARA NÃO CASTIGAR UM ADULTO

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